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Ozônio em feridas: como que pode acelerar cicatrização e frear infecções?

 


Feridas contaminadas, crônicas ou de cicatrização lenta continuam exigindo decisões clínicas cada vez mais estratégicas. Nesse cenário, a ozonioterapia veterinária vem chamando atenção por reunir três efeitos de grande interesse na rotina: ação antimicrobiana, modulação da inflamação e estímulo ao reparo tecidual [1].

Mais do que um recurso complementar, o ozônio aparece como uma ferramenta capaz de atuar em etapas diferentes da cicatrização, o que ajuda a explicar seu espaço crescente no manejo de feridas complexas [2].

Como o ozônio atua na ferida?

A ozonioterapia tem efeito biológico multifatorial. Seu uso em feridas é associado à inativação de patógenos, à reorganização da resposta inflamatória e ao estímulo de mecanismos ligados à regeneração tecidual [1][2].

Na prática, isso significa que o ozônio não age apenas “desinfetando” a lesão. Ele também influencia o ambiente local da ferida, favorecendo uma resposta mais compatível com resolução inflamatória e reparo [3].

Ação antimicrobiana: onde o ozônio mais chama atenção

Um dos pontos mais relevantes é seu amplo espectro de ação. O ozônio demonstrou atividade contra bactérias, fungos, vírus e protozoários, incluindo microrganismos multirresistentes e formadores de biofilme [1][4].

Esse efeito ocorre por dano oxidativo em membranas celulares, enzimas metabólicas e ácidos nucleicos microbianos, com ação rápida e sem associação clara com desenvolvimento de resistência [4][5].

Além disso, o impacto sobre biofilmes merece destaque. Em feridas crônicas, o ozônio pode reduzir massa e viabilidade do biofilme, diminuir a carga patogênica e até modular o microbioma local, aspectos especialmente importantes quando a infecção se mantém apesar da terapia convencional [4][6].

Nem toda formulação responde da mesma forma

Os resultados também variam conforme a apresentação utilizada. De forma geral, ozônio gasoso e óleos ozonizados mostraram desempenho superior à água ozonizada para ação antimicrobiana rápida e de amplo espectro, sobretudo frente a patógenos multirresistentes e biofilmes [5].

Isso reforça uma leitura prática importante: não basta falar em “usar ozônio”. A formulação, a estabilidade do produto e o tempo de exposição influenciam diretamente a resposta clínica [5][7].

Modulação da inflamação

Outro efeito central da ozonioterapia é sua capacidade de modular a inflamação. A literatura reunida aponta redução de citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α, IL-1β e IL-6, além de aumento de IL-10, favorecendo um perfil mais compatível com resolução e reparação [1][3].

Também há ativação de vias associadas à resposta antioxidante e ao controle inflamatório, como Nrf2/ARE, além de modulação de NF-κB, PI3K/Akt/mTOR e NLRP3, o que ajuda a explicar por que o ozônio pode melhorar o microambiente da ferida sem atuar apenas como antisséptico [3][8].

Em termos clínicos, isso importa porque inflamação prolongada costuma ser uma das marcas das feridas que “não andam”. Quando essa fase é melhor regulada, o reparo tende a ganhar mais consistência.

Reparação tecidual: por que o fechamento pode acontecer mais rápido?

No reparo propriamente dito, o ozônio está associado ao aumento de fatores de crescimento e à ativação de células fundamentais da cicatrização. Entre os principais efeitos descritos estão:

  •  aumento de VEGF, TGF-β, PDGF e FGF;

  •  maior angiogênese;

  •  estímulo à migração e proliferação de fibroblastos;

  •  aumento da síntese de colágeno [1][6].

Esses mecanismos ajudam a explicar os achados clínicos de redução do tamanho da ferida, aceleração do fechamento e melhora da formação de tecido de granulação [6][9]. Em mamíferos, aplicações tópicas foram associadas à redução do tempo de cicatrização em cerca de uma semana, enquanto abordagens sistêmicas mostraram efeito sobre contração da ferida, neovascularização e regeneração muscular [6].

Interpretação prática: onde o ozônio parece fazer mais sentido?

Na rotina, a ozonioterapia tende a ser mais interessante em feridas com uma ou mais destas características:

  •  infecção persistente;

  •  suspeita ou presença de biofilme;

  •  cicatrização lenta;

  •  lesões crônicas ou complexas;

  •  necessidade de terapia adjuvante para reduzir dependência exclusiva de antimicrobianos [2][4].

Também há interesse crescente em seu uso combinado com antibióticos, plasma rico em plaquetas e outras abordagens regenerativas, com potencial de efeito sinérgico no controle infeccioso e no reparo [4].

O principal limite ainda é a falta de padronização

Apesar do potencial, o grande obstáculo continua sendo a heterogeneidade dos protocolos. Há ampla variação em dose, concentração, via de administração, frequência e formulação, o que dificulta comparar estudos e reproduzir resultados com segurança [1][8].

Por isso, o cenário atual sugere entusiasmo com cautela: há base promissora para uso clínico, mas ainda falta padronização robusta para consolidar a prática de forma mais uniforme [1][10].

Conclusão

A ozonioterapia veterinária vem se firmando como um recurso adjuvante de alto interesse no manejo de feridas. Seu valor está na combinação de ação antimicrobiana ampla, controle mais equilibrado da inflamação e estímulo direto ao reparo tecidual. Em feridas difíceis, esse conjunto de efeitos ajuda a entender por que o ozônio deixou de ser visto apenas como alternativa e passou a ser considerado uma ferramenta biologicamente estratégica [1][2][6].

Referências

[1] BEEBE, S. Veterinary ozone and prolotherapy. In: Integrative Veterinary Medicine. 2023. DOI: 10.1002/9781119823551.ch18.

[2] ORLANDINI, J. R.; MACHADO, L. C.; AMBRÓSIO, C. E.; et al. Ozone and its derivatives in veterinary medicine: a careful appraisal. Veterinary and Animal Science, 2021. DOI: 10.1016/j.vas.2021.100191.

 

[3] HAO, K.; LI, Y.; FENG, J.; et al. Ozone promotes regeneration by regulating the inflammatory response in zebrafish. International Immunopharmacology, 2015. DOI: 10.1016/j.intimp.2015.05.026.

 

[4] ORSINI, J. A. Update on managing serious wound infections in horses: wounds involving soft tissues. Journal of Equine Veterinary Science, 2017. DOI: 10.1016/j.jevs.2017.01.012.

 

[5] WANG, X.; LIAO, D.; JI, Q.-M.; et al. Analysis of bactericidal effect of three medical ozonation dosage forms on multidrug-resistant bacteria from burn patients. Infection and Drug Resistance, 2022. DOI: 10.2147/IDR.S353277.

 

[6] XIAO, W.; TANG, H.; WU, M.; et al. Ozone oil promotes wound healing by increasing the migration of fibroblasts via PI3K/Akt/mTOR signaling pathway. Bioscience Reports, 2017. DOI: 10.1042/BSR20170658.

 

[7] DE OLIVEIRA, P.; DE ALMEIDA, N.; CONDA-SHERIDAN, M.; et al. Ozonolysis of neem oil: preparation and characterization of potent antibacterial agents against multidrug resistant bacterial strains. RSC Advances, 2017. DOI: 10.1039/C7RA00574A.

 

[8] XU, G.; SUN, X.; AN, J.; et al. Ozone protects from myocardial ischemia-reperfusion injury via inhibition of the NLRP3 inflammasome. European Journal of Pharmacology, 2025. DOI: 10.1016/j.ejphar.2025.177631.

 

[9] HESHAM, A.; AHMED, A.; ABASS, M.; et al. Ozonated saline intradermal injection: promising therapy for accelerated cutaneous wound healing in diabetic rats. Frontiers in Veterinary Science, 2023. DOI: 10.3389/fvets.2023.1283679.

 

[10] SUMIDA, J. M.; HAYASHI, A. M. Ozone therapy in veterinary medicine: clinical indications and techniques. Acta Veterinaria Brasilica, 2022. DOI: 10.21708/avb.2022.16.4.10330.

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