Fotobiomodulação em feridas complexas: quando o laser pode ser um adjuvante útil?
- Indna Ribeiro Simeão Zenerato

- há 12 minutos
- 4 min de leitura

Feridas complexas continuam sendo um desafio importante na rotina clínica. Lesões crônicas, contaminadas, profundas ou associadas a comorbidades tendem a cicatrizar mais lentamente e exigem abordagem multimodal. Nesse contexto, a fotobiomodulação surge como recurso adjuvante com potencial para favorecer o fechamento da ferida, modular a inflamação e melhorar a qualidade do reparo tecidual [1].
Em quais feridas a fotobiomodulação pode ajudar?
A literatura reunida inclui diferentes tipos de feridas complexas, como úlceras crônicas, feridas infectadas, queimaduras, lesões cirúrgicas de difícil resolução e outras feridas recalcitrantes [1][2]. O ponto em comum entre elas é a presença de inflamação persistente, risco infeccioso elevado, dificuldade de granulação e atraso na reepitelização.
Na prática, isso reforça uma ideia importante: a fotobiomodulação não substitui o tratamento de base, mas pode atuar como complemento útil quando o objetivo é acelerar a reparação e melhorar o ambiente da cicatrização [1][3].
Como a PBM atua no reparo da ferida?
Os efeitos observados envolvem múltiplos mecanismos biológicos. Entre os principais, destacam-se:
modulação da resposta inflamatória;
estímulo à proliferação e migração de fibroblastos;
aumento da síntese de colágeno;
favorecimento da angiogênese e da formação de tecido de granulação [1][4].
Esse conjunto de ações ajuda a explicar por que a PBM costuma ser mais valiosa em feridas que “estagnaram” em fases prolongadas da inflamação ou em tecidos com reparo comprometido.
Quando o laser tende a ser mais útil?
A utilidade clínica depende de individualização. O benefício tende a ser maior quando o protocolo considera fatores como:
Profundidade e tamanho da lesão
Feridas maiores e mais profundas podem demandar comprimentos de onda com maior penetração e ajuste da densidade de energia [4][5].
Presença de infecção
Feridas infectadas exigem atenção especial. Há menção ao uso de luz azul para controle microbiano, mas os resultados não são uniformes e a escolha do protocolo deve considerar a carga bacteriana e o impacto sobre células envolvidas no reparo [6].
Condições do paciente
Idade avançada, diabetes, alterações vasculares e outras comorbidades influenciam diretamente a resposta cicatricial e podem exigir adaptação do protocolo [4][7].
O que os protocolos mais promissores sugerem?
Os protocolos mais frequentemente associados a bons resultados usam comprimentos de onda na faixa do vermelho ao infravermelho próximo, geralmente entre 630 e 904 nm, com densidades de energia em torno de 2 a 12 J/cm² e frequência de 2 a 7 sessões por semana [3][8].
Também há resultados favoráveis com estratégias combinadas, como protocolos com múltiplos comprimentos de onda e emissão pulsada, especialmente em lesões mais complexas ou profundas [3][9].
Interpretação prática: o que isso muda no atendimento?
Na rotina, a principal mensagem é que a fotobiomodulação parece funcionar melhor quando entra como parte de um plano bem estruturado. Ou seja, ela tende a entregar mais valor quando vem associada a:
controle da causa de base;
manejo adequado da infecção;
avaliação vascular;
limpeza e cobertura apropriadas;
acompanhamento frequente da evolução da ferida [1][3].
Em outras palavras, o laser pode ser um bom adjuvante em feridas complexas, mas não deve ser tratado como solução isolada.
Conclusão
A fotobiomodulação pode ser uma ferramenta útil no manejo de feridas complexas quando o protocolo é ajustado ao tipo de lesão, à presença de infecção e às características do paciente. Os resultados mais consistentes apontam melhora no fechamento, na qualidade da cicatrização e no controle inflamatório, especialmente quando a PBM é integrada ao tratamento convencional [1][3][8].
Leitura complementar sugerida
Vale aprofundar a leitura em revisões sobre PBM em cicatrização e em estudos que discutem ajuste de dosimetria conforme tipo de ferida e fase do reparo [1][8].
Referências
[1] NAIR, H. K. R.; CHONG, S. S. Y.; SELVARAJ, D. D. J. Photobiomodulation as an adjunct therapy in wound healing. International Journal of Lower Extremity Wounds, 2023. DOI: 10.1177/15347346211004186.
[2] LITVINOVA, O.; BABENKO, N.; PAVLOV, S.; et al. Histological assessment of the effectiveness of photobiomodulation therapy in healing experimental complicated wounds. Letters in Applied NanoBioScience, 2025. DOI: 10.33263/LIANBS144.236.
[3] MOSCA, R. C.; ONG, A. A.; ALBASHA, O.; et al. Photobiomodulation therapy for wound care: a potent, noninvasive, photoceutical approach. Advances in Skin and Wound Care, 2019. DOI: 10.1097/01.ASW.0000553600.97572.d2.
[4] CHEN, Q.; YANG, J.; YIN, H.; et al. Optimization of photo-biomodulation therapy for wound healing of diabetic foot ulcers in vitro and in vivo. Biomedical Optics Express, 2022. DOI: 10.1364/BOE.451135.
[5] ÇITAK DEMIREZ, S.; ERKUT, T. S.; ÇAKMAK, A. S.; et al. Therapeutic potential of near-infrared polychromatic light in hyperglycemic human cell models: toward improved diabetic wound healing. Journal of Photochemistry and Photobiology B: Biology, 2025. DOI: 10.1016/j.jphotobiol.2025.113224.
[6] HU, J.; DONG, X.; LV, Y.; et al. Biphasic photobiomodulation of inflammation in mouse models of common wounds, infected wounds, and diabetic wounds. Journal of Photochemistry and Photobiology B: Biology, 2024. DOI: 10.1016/j.jphotobiol.2024.112868.
[7] WOLNY, D.; ŠTĚPÁNEK, L.; HORÁKOVÁ, D.; et al. Risk factors for non-healing wounds: a single-centre study. Journal of Clinical Medicine, 2024. DOI: 10.3390/jcm13041003.
[8] SUTTON, E.; GANIE, S.; CHAN, C.; et al. Photobiomodulation and diabetic foot and lower leg ulcer healing: a narrative synthesis. Foot, 2021. DOI: 10.1016/j.foot.2021.101847.
[9] PRIYADARSHI, A.; KESHRI, G. K.; GUPTA, A. Dual-NIR wavelength (pulsed 810 nm and superpulsed 904 nm lasers) photobiomodulation therapy synergistically augments full-thickness burn wound healing: a non-invasive approach. Journal of Photochemistry and Photobiology B: Biology, 2023. DOI: 10.1016/j.jphotobiol.2023.112761.




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