Ozonioterapia no tratamento da mastite bovina: uma alternativa promissora para reduzir o uso de antimicrobianos
- Indna Ribeiro Simeão Zenerato

- há 4 dias
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A mastite bovina continua sendo uma das principais enfermidades que afetam a pecuária leiteira em todo o mundo. Além de comprometer a saúde da glândula mamária, a doença reduz a produção de leite, altera sua qualidade, aumenta os custos de produção e gera prejuízos significativos para os produtores. O cenário torna-se ainda mais preocupante diante do aumento da resistência bacteriana aos antimicrobianos, tornando os tratamentos convencionais cada vez mais desafiadores.
Nesse contexto, terapias complementares como a ozonioterapia têm despertado o interesse da comunidade científica por oferecerem uma abordagem com potencial para reduzir a carga bacteriana, estimular a resposta imunológica local e diminuir a necessidade do uso de antibióticos. Um estudo recente avaliou os efeitos da aplicação intramamária de gás ozonizado em vacas leiteiras com mastite subclínica, demonstrando resultados promissores na recuperação da saúde da glândula mamária.

O desafio da mastite na produção leiteira
A mastite é uma inflamação da glândula mamária causada, na maioria das vezes, por microrganismos como bactérias, podendo ocorrer de forma clínica ou subclínica. A forma subclínica merece atenção especial, pois geralmente não apresenta alterações visíveis no leite ou no úbere, permanecendo despercebida durante longos períodos enquanto reduz a produtividade e favorece a disseminação dos agentes infecciosos dentro do rebanho.
O tratamento convencional baseia-se principalmente no uso de antimicrobianos. Entretanto, a presença crescente de bactérias resistentes, aliada às exigências relacionadas ao período de descarte do leite e às preocupações com resíduos medicamentosos, impulsiona a busca por terapias seguras, eficazes e sustentáveis.
Como a ozonioterapia pode contribuir?
O ozônio medicinal é uma mistura de oxigênio e ozônio produzida por equipamentos específicos e utilizada em concentrações terapêuticas cuidadosamente controladas. Sua ação ocorre por diferentes mecanismos fisiológicos.
Entre seus principais efeitos estão a ação antimicrobiana contra bactérias, fungos e vírus, a modulação da resposta inflamatória, a melhora da oxigenação tecidual, o estímulo da circulação local e a ativação dos mecanismos antioxidantes do organismo. Esses efeitos tornam a ozonioterapia uma alternativa interessante para auxiliar no tratamento de infecções, favorecendo a recuperação dos tecidos sem contribuir para o desenvolvimento de resistência antimicrobiana.
Como o estudo foi realizado?
A pesquisa avaliou 50 amostras de leite provenientes de quartos mamários naturalmente infectados de 44 vacas da raça Holandesa.
O protocolo consistiu na aplicação intramamária de gás ozonizado utilizando o equipamento OZONEVET®, na concentração de 35 µg, totalizando quatro aplicações com intervalos de 48 horas entre cada sessão, seguindo as recomendações do fabricante.
Para avaliar a eficácia do tratamento, foram realizados diferentes métodos de diagnóstico antes e após a terapia:
Contagem automática de células somáticas (CCS);
Contagem celular por microscopia direta utilizando o método de Prescott & Breed;
Teste California Mastitis Test (CMT);
Análise microbiológica por espectrometria de massa utilizando a técnica MALDI-TOF.
Os resultados foram analisados estatisticamente utilizando o software GraphPad Prism®, considerando significância estatística para valores de p inferiores a 0,05.
Principais resultados
Os resultados demonstraram melhora significativa em diversos indicadores relacionados à saúde da glândula mamária.
Redução da celularidade pelo teste CMT
O California Mastitis Test apresentou redução significativa dos escores após o tratamento.
A mediana dos resultados caiu de grau 3 no início do tratamento para grau 2 após oito dias, indicando redução importante da resposta inflamatória e da celularidade presente no leite (p = 0,0001).
Essa redução demonstra melhora clínica da mastite subclínica e diminuição da inflamação mamária.
Diminuição das células inflamatórias
A análise pelo método de Prescott & Breed também revelou resultados bastante expressivos.
As células mononucleares apresentaram redução de aproximadamente 736 mil células/mL para 424 mil células/mL.
Já os neutrófilos (células polimorfonucleares), importantes marcadores da inflamação aguda, reduziram de aproximadamente 496 mil células/mL para 200 mil células/mL.
Esses achados sugerem que a ozonioterapia favoreceu a resolução do processo inflamatório e promoveu uma resposta imunológica mais equilibrada, com maior participação de macrófagos e menor recrutamento de neutrófilos.
Contagem automática de células somáticas
Embora tenha sido observada redução em outros parâmetros, a contagem automática de células somáticas não apresentou diferença estatisticamente significativa entre o início e o final do tratamento (p = 0,1923).
Segundo os autores, esse resultado pode estar relacionado às limitações da técnica automática, que avalia todas as células somáticas presentes no leite sem diferenciar seus tipos celulares, diferentemente da microscopia direta.
Redução da contaminação bacteriana
Um dos resultados mais relevantes foi observado na análise microbiológica por MALDI-TOF.
Antes do tratamento, aproximadamente 79,3% das amostras apresentavam resultado positivo para agentes infecciosos.
Após a ozonioterapia, esse percentual foi reduzido para 48,2%, indicando importante redução da presença bacteriana nos quartos mamários tratados.
Esse resultado demonstra que a ozonioterapia possui potencial para auxiliar no controle microbiológico da mastite e favorecer a cura bacteriológica em parte dos animais.
O que esses resultados significam na prática?
A redução da inflamação, da celularidade e da carga bacteriana indica melhora da saúde da glândula mamária e reforça o potencial da ozonioterapia como ferramenta complementar dentro dos programas de controle da mastite.
Além dos benefícios clínicos, a utilização dessa terapia pode trazer impactos econômicos importantes para a propriedade, como:
redução do uso de antibióticos;
menor descarte de leite devido ao período de carência;
diminuição dos custos com medicamentos;
melhora da qualidade microbiológica do leite;
maior bem-estar animal;
contribuição para programas de uso racional de antimicrobianos.
É importante destacar que a ozonioterapia não substitui boas práticas de manejo, higiene na ordenha, monitoramento sanitário e diagnóstico precoce. Ela deve ser incorporada como parte de um programa integrado de controle da mastite.
Considerações finais
Os resultados deste estudo reforçam o potencial da ozonioterapia intramamária como uma alternativa terapêutica promissora para o tratamento da mastite subclínica em vacas leiteiras.
A terapia foi capaz de reduzir significativamente os escores do CMT, diminuir células inflamatórias avaliadas pela microscopia direta e reduzir a positividade microbiológica das amostras de leite, indicando melhora da saúde da glândula mamária.
Embora a contagem automática de células somáticas não tenha apresentado diferença estatística, os demais indicadores demonstraram benefícios relevantes que justificam novas pesquisas e incentivam a utilização da ozonioterapia como ferramenta complementar na medicina veterinária de produção.
Diante do cenário mundial de crescente resistência aos antimicrobianos, tecnologias capazes de preservar a saúde animal, reduzir o uso de antibióticos e manter a qualidade do leite representam um importante avanço para a pecuária leiteira sustentável.
Referência
ZANGRANDE, Maria Victoria. Ozonioterapia e sua relação com a saúde da glândula mamária de bovinos da raça holandesa. 2023. Tese. Biblioteca responsável: BR68.1. Disponível na base VETTESES. ID: vtt-258547. Data de publicação: 27 out. 2023.




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