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Laserterapia, LEDterapia , Fototerapia, Fotobiomodulação? Por Que Esses Termos Não São a Mesma Coisa?

A utilização da luz como agente terapêutico acompanha a história da medicina há milênios. No entanto, com o avanço da tecnologia e da ciência, termos como LASERterapia, LEDterapia, fototerapia e fotobiomodulação passaram a ser usados — muitas vezes como sinônimos — gerando confusão conceitual, científica e até regulatória.

Mas esses termos não significam a mesma coisa. Entender suas diferenças não é apenas uma questão semântica: trata-se de compreender mecanismos biológicos distintos, com implicações diretas na prática clínica veterinária.

Antes do LASER: a luz como agente terapêutico empírico

Helioterapia na Antiguidade

Muito antes da existência de dispositivos emissores de luz artificial, a luz solar já era utilizada com finalidade terapêutica, prática conhecida como helioterapia.


Registros históricos indicam seu uso em diferentes civilizações:

  • Egito Antigo: tratamento de doenças cutâneas (Papiro de Ebers);

  • Índia (Ayurveda): o sol como agente de equilíbrio vital;

  • Grécia Antiga: Hipócrates descrevia a importância do sol para a saúde;

  • Roma: solaria e banhos solares integravam práticas terapêuticas.


Características da helioterapia

  • Fonte: luz solar (policromática)

  • Controle espectral: inexistente

  • Dosimetria: inexistente

  • Base conceitual: empírica

  • Mecanismos biológicos: desconhecidos

O nascimento da fototerapia (final do século XIX)

A Fototerapia


A fototerapia, em seu sentido clássico, surge apenas quando a luz passa a ser:

  • artificial,

  • concentrada,

  • parcialmente controlável,

  • separável por espectro.

 

Niels Ryberg Filsen. Fonte: Britannica, 2025
Niels Ryberg Filsen. Fonte: Britannica, 2025

O médico Niels Ryberg Finsen utilizou luz artificial rica em ultravioleta no tratamento do lúpus vulgaris (tuberculose cutânea), trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1903.


Fototerapia: conceito clássico

  • Fontes: sol, lâmpadas UV, luz branca

  • Mecanismo: desconhecido ou macroscópico

  • Ênfase: efeito clínico observável

  • Uso atual clássico:

    • icterícia neonatal

    • dermatologia (UV)

 

Limitação conceitual

 Desde sua origem, a fototerapia tornou-se um termo excessivamente amplo, englobando desde efeitos térmicos até radiação ionizante, o que abriu espaço para confusões conceituais posteriores.

A virada do século XX: o surgimento da LASERterapia

''Laserterapia de baixa intensidade (LLLT)''


Endre Mester. Fonte: Laser.nu
Endre Mester. Fonte: Laser.nu

Com a invenção do primeiro laser funcional em 1960, e os estudos de Endre Mester no final da década de 1960, observou-se algo inesperado:

 LASERS de baixa potência não destruíam tecidos, mas estimulavam cicatrização e crescimento tecidual. O experimento:

Na época, um pesquisador americano chamado Paul McGuff havia publicado estudos mostrando que feixes de Laser de Rubi de alta potência conseguiam destruir células tumorais em ratos. Endre Mester, trabalhando na Universidade Semmelweis em Budapeste, tentou replicar esse experimento.


  • O Objetivo: Incinerar ou destruir tumores implantados em ratos usando laser.

  • O Equipamento: Ele utilizou um laser de Rubi, similar ao de McGuff.


O LASER que Mester conseguiu para o experimento tinha uma potência muito inferior àquela utilizada pelos americanos (apenas 20 milliwatts). Devido a essa baixa potência, o laser não gerou calor suficiente para queimar ou destruir as células cancerígenas.


Resultado Inicial: O experimento foi considerado um fracasso total no combate ao câncer. Os tumores continuaram crescendo normalmente.

Embora o laser não tenha matado o câncer, Mester observou algo estranho nos ratos do grupo tratado em comparação com o grupo de controle (que não recebeu luz):


  1. Cicatrização: As incisões feitas na pele dos ratos para implantar as células tumorais cicatrizaram muito mais rápido no grupo do laser.

  2. Crescimento de Pelos: A área que havia sido raspada para a aplicação do laser teve um crescimento de pelos muito mais acelerado e denso do que nos ratos não tratados.


    Experimento de Endre Mester com Laser de baixa potência resulta em estimulação tecidual. Eccovet, 2026
    Experimento de Endre Mester com Laser de baixa potência resulta em estimulação tecidual. Eccovet, 2026

Assim nasce o termo:

  • Laserterapia de Baixa Intensidade

  • LLLT (Low Level Laser Therapy)

Características

  • Fonte: laser (HeNe, depois diodos)

  • Potência: baixa

  • Efeito térmico: desprezível

  • Resultado: efeito biológico não destrutivo

📌 Erro histórico central

 O fenômeno foi nomeado a partir da ferramenta (LASER), e não do mecanismo biológico, criando a falsa ideia de que o efeito terapêutico seria exclusivo do laser.

LEDs entram em cena: a confusão aumenta


Diodos de LED. Fonte: Freepik, 2026
Diodos de LED. Fonte: Freepik, 2026

LEDterapia (anos 1980–1990)

 Com a evolução dos LEDs, tornou-se possível emitir luz:


  • relativamente monocromática,

  • estável,

  • com potência adequada para aplicações biológicas.


Diversos estudos demonstraram efeitos celulares semelhantes aos obtidos com lasers, desde que o comprimento de onda e a dose fossem equivalentes.


Problema conceitual:

  • mesmo comprimento de onda,

  • mesmos cromóforos,

  • mesma resposta celular,

  • nomes diferentes apenas pela fonte.

Consequências práticas

  • fragmentação científica

  • disputas comerciais

  • confusão regulatória

  • dificuldade de comparar estudos

Fotobiomodulação: o conceito que organiza o campo

Fotobiomodulação (PBM)

A partir dos anos 2000, pesquisadores como Karu, Anders e Hamblin propuseram um novo termo baseado no fenômeno biológico, e não no equipamento:


Fotobiomodulação é a modulação de processos biológicos por luz não ionizante, em doses não térmicas, via absorção por cromóforos celulares.


Vantagens do termo

  • Independe da fonte (LASER ou LED)

  • Baseado em mecanismos celulares:

    • citocromo c oxidase

    • liberação de óxido nítrico

    • ROS em níveis sinalizadores

    • modulação mitocondrial

  • Integra-se à bioquímica e fisiologia celular


📌 Situação atual

  • LLLT: termo em declínio científico

  • Fotobiomodulação (PBM): termo preferido em artigos e consensos

  • “Laserterapia”: ainda comum na clínica por inércia cultural e marketing.

Fotodinâmica: semelhante, mas não igual

Terapia Fotodinâmica (PDT)

Apesar de frequentemente associada à fotobiomodulação, a PDT é um conceito distinto.

Ela exige três elementos simultâneos:

  1. Luz

  2. Fotossensibilizador

  3. Oxigênio

O resultado é a produção intensa de espécies reativas de oxigênio, levando à morte celular seletiva.

📌 Diferença essencial:

  • PBM → modula, regula, estimula

  • PDT → destrói seletivamente (tumores, microrganismos)

Misturar esses conceitos é um erro conceitual grave.

Biofotônica: o guarda-chuva maior

O que é biofotônica?

A biofotônica não nasce como um termo clínico, mas científico.

 Ela estuda a interação entre luz e sistemas biológicos, com aplicações diagnósticas e terapêuticas.

Inclui:

  • fotobiomodulação

  • terapia fotodinâmica

  • fluorescência

  • espectroscopia

  • Raman

  • OCT

  • imagens ópticas

📌 Ou seja:

Fotobiomodulação é uma aplicação clínica dentro da biofotônica — não um sinônimo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DEANA, Alessandro Melo. Introdução à biofotônica: breve histórico. In: FERNANDES, Kristianne Porta Santos; FERRARI, Raquel Agnelli Mesquita; FRANÇA, Cristiane Miranda (org.). Biofotônica: conceitos e aplicações. São Paulo: Universidade Nove de Julho – UNINOVE, 2017. p. 11–16.

 

DEANA, Alessandro Melo. Fundamentos da fotobiomodulação. In: FERNANDES, Kristianne Porta Santos; FERRARI, Raquel Agnelli Mesquita; FRANÇA, Cristiane Miranda (org.). Biofotônica: conceitos e aplicações. São Paulo: Universidade Nove de Julho – UNINOVE, 2017. p. 55–69.

 

FERNANDES, Kristianne Porta Santos; FERRARI, Raquel Agnelli Mesquita; FRANÇA, Cristiane Miranda (org.). Biofotônica: conceitos e aplicações. São Paulo: Universidade Nove de Julho – UNINOVE, 2017.

 

HIPÓCRATES. Des airs, des eaux et des lieux. In: REMACLE, Philippe (Ed.). L'Antiquité grecque et latine du Moyen Âge. Disponível em:

. Acesso em: 07 jan. 2026.

 

JARRETT, Paul; SCRAGG, Robert. A short history of phototherapy, vitamin D and skin disease. Photochemical & Photobiological Sciences, [S. l.], v. 16, n. 3, p. 283-290, 2017. DOI 10.1039/c6pp00406g. Disponível em:

 

MCGUFF, Paul E.; DETERLING JUNIOR, Ralph A.; GOTTLIEB, Leonard S. Tumoricidal effect of laser energy on experimental and human malignant tumors. The New England Journal of Medicine, Boston, v. 273, n. 9, p. 490-492, 26 ago. 1965. Disponível em : https://www.nejm.org/doi/abs/10.1056/NEJM196508262730906

 

MESTER, Endre; MESTER, Andrew F.; MESTER, Adam. The biomedical effects of laser application. Lasers in Surgery and Medicine, New York, v. 5, p. 31-39, 1985. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/lsm.1900050105

 

MOSKVIN, Sergey Vladimirovich; KHADARTSEV, Aleksandr Agubechirovich. Laser blood illumination: the main therapeutic techniques. Moscow–Tver: Triada, 2018. Disponível em: Eanweanw.org/konkurs-2018/Moskvin_Laser%20Blood%20Illumination.pdf 

 

SELLERA, Fábio Parra; NASCIMENTO, Cristiane Lassálvia; RIBEIRO, Martha Simões (ed.). Photodynamic therapy in veterinary medicine: from basics to clinical practice. Cham: Springer, 2016.

 

WINKLER, Christopher J.; MILLER, Lisa A. (ed.). Laser therapy in veterinary medicine: photobiomodulation. 2. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2025.

 
 
 

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