Como a fotodinâmica pode ser uma “arma letal” para infecções tópicas persistentes na rotina clínica?
- Liangrid Nunes

- 30 de abr.
- 4 min de leitura
Infecções tópicas persistentes continuam sendo um desafio frequente na prática clínica, sobretudo quando apresentam recorrência, resposta limitada aos tratamentos convencionais ou participação de microrganismos resistentes. Nesse contexto, a terapia fotodinâmica tem ganhado destaque como estratégia adjuvante por atuar de forma localizada e com mecanismo diferente dos antimicrobianos tradicionais [1].
O que faz a fotodinâmica agir contra microrganismos?
A terapia fotodinâmica combina um fotossensibilizador, luz em comprimento de onda específico e oxigênio molecular para gerar espécies reativas de oxigênio. Essas moléculas promovem dano oxidativo em estruturas celulares e microbianas, levando à destruição seletiva do alvo tratado [1][2].
Esse mecanismo explica por que a técnica desperta tanto interesse em infecções difíceis de controlar: ela não depende da mesma lógica farmacológica dos antimicrobianos clássicos e, por isso, oferece uma via alternativa para o controle local de patógenos persistentes [1][3].
Quais efeitos clínicos tornam a técnica tão promissora?
O principal valor da fotodinâmica está na combinação de efeitos antimicrobianos e resposta clínica local favorável.
Ação ampla contra diferentes patógenos
A literatura reunida mostra atividade da PDT contra infecções virais, bacterianas, fúngicas e parasitárias. Isso inclui condiloma acuminado, verrugas vulgares, infecções por MRSA, onicomicose e leishmaniose cutânea [1][2][4].
Redução da carga microbiana
Nos quadros bacterianos, a fotodinâmica demonstrou capacidade de reduzir significativamente a carga microbiana, inclusive em modelos com MRSA. Em estudos experimentais, também houve inibição de biofilme e melhora do ambiente local da lesão [5][6].
Baixo potencial de resistência
Um dos efeitos mais relevantes do ponto de vista estratégico é o baixo potencial de indução de resistência microbiana. Isso torna a técnica especialmente interessante em um cenário clínico cada vez mais marcado pela resistência antimicrobiana [1][3][7].
Boa resposta em lesões superficiais e persistentes
Lesões superficiais e recidivantes parecem responder de forma mais consistente. Em condiloma acuminado, por exemplo, foram relatadas altas taxas de resposta completa e baixa recorrência, especialmente com 5-ALA tópico [2][4]. Em verrugas vulgares, os resultados são mais variáveis, mas ainda assim favoráveis em subtipos mais superficiais [2][8].
Potencial benefício estético e local
Além do efeito antimicrobiano, a técnica é associada a bons resultados locais e cosméticos, o que ajuda a explicar seu interesse crescente em dermatologia e em condições cutâneas persistentes [1][3].
Onde os efeitos parecem mais relevantes na rotina clínica?
Na prática, a fotodinâmica tende a chamar mais atenção quando o objetivo é controlar infecções que:
persistem apesar da terapia convencional;
reaparecem com frequência;
envolvem biofilme;
exigem abordagem local mais direcionada [1][3][5].
Em infecções fúngicas como a onicomicose, por exemplo, o efeito pode ser relevante, especialmente quando há preparo prévio para melhorar a penetração do fotossensibilizador [1][9]. Em infecções bacterianas, o interesse aumenta nos casos associados a resistência e cronicidade [5][7].
Por que ela pode ser vista como uma “arma letal”?
A expressão faz sentido porque a fotodinâmica reúne características difíceis de encontrar na mesma estratégia terapêutica: ação local, amplo espectro, baixo potencial de resistência e possibilidade de atuar também em contextos com biofilme [1][3][5].
Em vez de apenas “acompanhar” a infecção, a técnica pode interferir diretamente na viabilidade do patógeno e no microambiente da lesão, o que amplia seu valor como adjuvante na rotina clínica.
O que ainda precisa evoluir?
Apesar dos efeitos promissores, ainda existe heterogeneidade entre protocolos, principalmente quanto ao tipo de fotossensibilizador, concentração, fonte de luz e intervalo entre sessões [1][3]. Também há interesse crescente em sistemas de entrega mais sofisticados, como nanocarreadores, para ampliar estabilidade, penetração e eficácia local [10].
A terapia fotodinâmica vem se consolidando como uma alternativa adjuvante de grande interesse para infecções tópicas persistentes. Seus principais efeitos incluem redução da carga microbiana, ação sobre diferentes patógenos, baixo potencial de resistência e resposta favorável em lesões superficiais recidivantes. Por isso, a técnica pode, sim, ser vista como uma “arma letal” na rotina clínica — especialmente quando o tratamento convencional já não entrega a resposta esperada [1][3][5].
Referências
[1] ANAGU, O.; SALAS, J.; CHOE, S.; et al. The emerging role of photodynamic therapy in the treatment of cutaneous infections. Italian Journal of Dermatology and Venereology, 2025. DOI: 10.23736/S2784-8671.24.07910-6.
[2] ROSSI, R.; BRUSCINO, N.; RICCERI, F.; et al. Photodynamic treatment for viral infections of the skin. Giornale Italiano di Dermatologia e Venereologia, 2009.
[3] MONFRECOLA, G.; MEGNA, M.; ROVATI, C.; et al. A critical reappraisal of off-label use of photodynamic therapy for the treatment of non-neoplastic skin conditions. Dermatology, 2021. DOI: 10.1159/000507926.
[4] PRAYOGO, S. A.; ANDREW, H.; CONG, S.; INTARAN, K. D. A. Photodynamic therapy in the treatment of condyloma acuminata: a systematic review of clinical trials. International Journal of STD and AIDS, 2023. DOI: 10.1177/09564624221138351.
[5] VECCHIO, D.; DAI, T.; HUANG, L.; et al. Antimicrobial photodynamic therapy with RLP068 kills methicillin-resistant Staphylococcus aureus and improves wound healing in a mouse model of infected skin abrasion. Journal of Biophotonics, 2013. DOI: 10.1002/jbio.201200121.
[6] CHEN, P.; ZOU, Y.; LIU, Y.; et al. Low-level photodynamic therapy in chronic wounds. Photodiagnosis and Photodynamic Therapy, 2024. DOI: 10.1016/j.pdpdt.2024.104085.
[7] CLÉMENT, S.; WINUM, J.-Y. Photodynamic therapy alone or in combination to counteract bacterial infections. Expert Opinion on Therapeutic Patents, 2024. DOI: 10.1080/13543776.2024.2327308.
[8] LI POMI, F.; MACCÀ, L.; D’ALOJA, A.; et al. Conventional versus daylight photodynamic therapy for recalcitrant hand warts: efficacy, safety and recurrence. Photodiagnosis and Photodynamic Therapy, 2024. DOI: 10.1016/j.pdpdt.2024.104360.
[9] SHEN, J. J.; JEMEC, G. B. E.; ARENDRUP, M. C.; SAUNTE, D. M. L. Photodynamic therapy treatment of superficial fungal infections: a systematic review. Photodiagnosis and Photodynamic Therapy, 2020. DOI: 10.1016/j.pdpdt.2020.101774.
[10] KRISHNASWAMI, V.; LOUSHAMBAM, B.; SUBRAMANIAN, S.; et al. Nanotechnology-enhanced photosensitizers: review of multifunctional theranostics for precision medicine. Current Pharmaceutical Design, 2025. DOI: 10.2174/0113816128404964251128150708.




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