Como é Trabalhar com Laser/LED de Baixa Potência na Medicina Veterinária?
- Liangrid Nunes Barroso Rodrigues
- 20 de fev.
- 4 min de leitura
Se você está pensando em incorporar LASER ou LED de baixa potência na sua rotina clínica, provavelmente já ouviu duas versões extremas:
De um lado, dizem que é quase milagroso.
Do outro, que é apenas “luz bonita”.
A verdade — como quase sempre na medicina — está no meio.
Trabalhar com fotobiomodulação (PBM) na veterinária não é sobre milagres. É sobre entender biologia, inflamação e reparo tecidual. E usar energia luminosa como ferramenta moduladora do microambiente celular.
O que realmente significa usar LASER de baixa potência?

Na prática clínica, a fotobiomodulação é uma terapia adjuvante. Ela não substitui cirurgia, antibiótico, anti-inflamatório ou debridamento. Ela atua modulando processos biológicos.
Hoje, os principais cenários onde o LASER/LED é utilizado são:
Dor musculoesquelética (especialmente osteoartrite)
Pós-operatório ortopédico
Lesões musculares e tendíneas
Feridas traumáticas
Dermonecrose por toxinas (como Bothrops e Loxosceles)
Deiscências cirúrgicas
Úlceras crônicas
A aplicação é simples. A decisão terapêutica é que exige raciocínio.
Onde o LASER realmente tem mostrado resultados interessantes?
Nos últimos anos, os dados mais consistentes vêm de modelos de lesão inflamatória intensa e dano muscular.
Em modelo experimental de envenenamento por Bothrops leucurus, a combinação de 660 nm + 808 nm mostrou:
Redução significativa de edema
Redução de CK e LDH (menor dano muscular)
Recuperação funcional mais rápida
Melhor resposta do que comprimentos isolados
Isso sugere modulação real da inflamação e citoproteção muscular.
O que acontece biologicamente numa ferida irradiada?
A cicatrização tem três fases:
1. Fase inflamatória
A fotobiomodulação pode reduzir mediadores pró-inflamatórios, modular COX-2 e melhorar microcirculação.
2. Fase proliferativa
Pode estimular fibroblastos, angiogênese e síntese de colágeno.
3. Fase de remodelamento
Pode favorecer organização mais adequada das fibras.
O mecanismo mais aceito envolve absorção de fótons pela citocromo c oxidase mitocondrial, com aumento transitório de ATP e modulação de vias redox.
Mas é importante reforçar: plausibilidade biológica não significa resposta garantida em todo paciente.
O ponto que separa quem entende de quem apenas aplica: dosimetria
A fotobiomodulação segue uma curva bifásica:
Dose baixa → estimula
Dose alta → pode inibir
Subdosagem não gera efeito.
Superdosagem pode atrapalhar.
Trabalhar com laser não é “passar luz na ferida”. É aplicar energia calculada.
Comprimento de onda, densidade de energia, potência, tempo e frequência importam.
Como é o dia a dia com essa tecnologia?
Você começa a perceber padrões:
Feridas muito inflamadas respondem melhor quando tratadas precocemente.
Pacientes geriátricos parecem se beneficiar mais.
Lesões altamente necróticas precisam de debridamento antes de qualquer coisa.
Nem todo caso responde da mesma forma.
A satisfação clínica costuma vir quando você observa:
Redução de exsudato
Organização mais rápida do tecido de granulação
Diminuição de dor
Melhor mobilidade
Mas é preciso maturidade para aceitar que não é solução universal.
Vale a pena trabalhar com LASER de baixa potência?
Depende do seu perfil profissional. Se você gosta de fisiologia, inflamação, bioenergética e quer uma ferramenta adjuvante bem fundamentada, sim. Se você busca algo milagroso, padronizado e 100% previsível, provavelmente vai se frustrar. Laser de baixa potência é tecnologia. Mas principalmente é biologia aplicada.
Trabalhar com fotobiomodulação na veterinária é integrar ciência básica, prática clínica e senso crítico.
Quando bem indicada e associada ao manejo adequado, pode acelerar recuperação, modular dor e melhorar qualidade de vida. Quando usada como panaceia, perde credibilidade. A diferença não está no equipamento. Está no profissional que o utiliza.
REFERÊNCIAS:
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Autoria:
M.V. Liangrid Nunes. B. Rodrigues
CRMV-SP 61.681
Graduada Medicina Veterinária no Centro Universitário de Jaguariúna (Unifaj); Voluntária no Núcleo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares (NEPI) da Unifaj em 2020. Bolsista na Clínica de Pequenos Animais no Hospital Veterinário Unieduk, de Jaguariúna 2020-2022. Aprimoramento em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais pelo Hospital Escola Veterinário de Americana (FAM) (2023 -2024). Ozonioterapeuta veterinária pelo instituto Bioethcus (2025). Assistente de pesquisa e desenvolvimento na Eccovet com foco em Biofotônica e Fotobiomodulação.




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